caldo

Edit página inicial portfólio textos projetos currículo página inicial portfólio textos projetos currículo caldo Meu pai me chamou no quiosque e disse baixinho, entre risadas, que queria fazer xixi no mar. Como eu queria nadar, o acompanhei e, no caminho, fiquei preocupada com a urina, se ela chegaria no meu pedaço do mar… Eram quatro da tarde e as ondas não estavam mais tão calmas. Ele avisou que estava indo pro fundo, pediu para eu ficar onde a água bate nos joelhos e quando me deu as costas, eu vi o mar. Talvez tenha sido a primeira vez que o olhei, mesmo tendo ido várias vezes para aquela mesma praia em verões tão abafados quanto aquele. Lá longe, o oceano ia de encontro ao vento, que suspendia suas águas formando pequenas ondulações sobre a superfície. Mais perto da areia chegavam as ondas maiores, que por ali se desfaziam para serem puxadas de volta pela maré. Depois, elas retornavam à superfície, sofriam outros ataques do vento e de novo se desmanchavam na areia, cumprindo o movimento cíclico de um mar que é sempre o mesmo, ainda que diferente. Naquele dia, comecei a passar por cima das ondas, quando ainda não tinham quebrado, e a nadar por debaixo delas, quando pareciam que iam se enfurecer bem em cima de mim. Ficava grata por meu pai não estar olhando e até do xixi eu esqueci. Sem seus cuidados, eu poderia explorar até onde minha coragem permitisse. Enquanto ficava cada vez mais fundo, eu tentava colocar em frases o que estava aprendendo, queria usá-las depois para convencê-lo de que eu já era grande e sabia encarar o mar sozinha. Quando a água estava quase no meu peito, senti a força da maré puxar meus pés e virei as costas pro mar, pra nadar rumo ao raso. Foi assim que uma onda fortíssima me engoliu, eu não a ouvi chegar. Em um segundo estava nadando, no outro, meus braços estavam desorientados, perdidos na intensidade do mar. O ar ficava cada vez menor em meus pulmões, então abri os olhos. No meio da onda, com as retinas ardendo de sal, vi meu cabelo efervescente na espuma e enxerguei algumas imagens desconexas da minha curta vida. Quando voltei a superfície, avistei meu pai e, trêmula, corri para pegar em sua mão. Não usei nenhuma das frases planejadas e, também, não contei sobre meu primeiro caldo, com medo de que ele pudesse me repreender. Na volta para o quiosque, só o mar fazia barulho.
essência

Edit página inicial portfólio textos projetos currículo página inicial portfólio textos projetos currículo essência Passar a manhã sentindo um cheiro desagradável. Supor que seja culpa da casa suja. Esfregar o chão da cozinha, esterilizar o banheiro, tirar pó dos móveis, aspirar o sofá. Tomar banho com uma esponja comum. Deixar o banho, baforar na mão, escovar os dentes. Constatar que o odor continua imponente. Remover todas as roupas do guarda-roupa, colocar a máquina de lavar para funcionar. Perder muito tempo com todas as lavagens. Dormir sem ter resolvido o problema. Despertar com ânsia de vômito, faltar ao trabalho. Mover todos os móveis de lugar, atingir cada canto da casa com um pano encharcado de desinfetante. Atinar que é a primeira vez que faz uma faxina tão completa. Distinguir o cheiro externo do cheiro próprio. Adentrar no banheiro, limpar com mais afinco todos os membros, não esquecer dos vãos entre os dedos dos pés. Desligar o chuveiro, secar a água do corpo, cheirar a toalha. De novo não, de novo sim. Espalhar sob a pele o creme corporal de flor de ameixa. Escovar os dentes, usar fio dental, escovar de novo, bochechar enxaguante bucal. Disfarçar ainda mais o odor com um perfume cítrico. Vestir uma roupa estampada, ir ao mercado mais próximo. Caminhar ao lado de pessoas que não farejam nada de errado. Comprar uma bucha natural, optar pelo caixa automatizado, não pegar uma sacola plástica. Partir para casa com a embalagem sufocada entre os dedos, andar, de novo, com medo de que as pessoas percebam algo, mas elas nada percebem. Mandar a roupa direto para o cesto sujo, lacrar o cesto. Ligar o chuveiro, notar que o sabonete está quase acabando por conta do banho anterior, sair respingando todo o banheiro em busca de outro. Voltar ao box, gastar mais de uma barra tentando conquistar outro cheiro. Dar alguns passos para longe do banheiro, deitar na cama e respirar com alívio. Não há nada de errado? Ficar de bruços, antecipar a perturbação no olfato, acender a luz. Encher a garganta de angústia para rejeitá-la logo em seguida. Olhar para os dedos enrugados, sentir a pele fina. Abrir todos os armários em busca de algo mais forte. Encontrar uma esponja de aço e um detergente. Agora vai. Começar pelos pés, lastimar a pele no ferro, pensar se tomou a vacina antitetânica. Subir para as pernas, enquanto a água deixa um rastro vermelho. Desistir por um momento, refletir se precisa mesmo disso tudo. Gritar, chorar, espernear. Entender que está por debaixo da pele. É preciso sangrar.
O gato espreita

Edit página inicial portfólio textos projetos currículo página inicial portfólio textos projetos currículo O gato espreita Todo dia, por volta das três da tarde, o gato da vizinha pula no parapeito da janela. O sol aquece suas patas, seus pelos ficam marcados pelos buracos da rede de proteção e entre cheirar o pé de cebolinha e observar o movimento da rua, ele não esquece de tomar seu banho diário. Qualquer mínimo barulho que venha do meu apartamento faz seus olhos assustados desviarem para mim, que continuo às sombras, assistindo a cor do dia mudar no reflexo da parede branca, por detrás da tela high definition do notebook. Para todos os efeitos, eu não enlouqueci. Mas, mesmo quando ele não está ali, sinto que espreita meus ombros, encurrala minha espontaneidade, joga na minha cara os meus defeitos. Se esqueço a toalha úmida em cima da cama, o gato incorpora a voz irritada da minha mãe. Se adio algo importante para ficar no sofá assistindo a um filme ruim, o gato pede meu extrato bancário e como um empreendedor diz “não é assim que se faz o primeiro milhão antes dos 30”. Se começo a escrever um texto sobre solidão, o gato recita Drummond e desmonta minha vontade de continuar, afinal já está tudo dito. Pesquiso por analistas online, quem sabe alguém pode me ajudar a expulsar o olhar do gato. Na primeira sessão, explico meu problema para um homem de meia idade, ele pergunta se tenho certeza de que se trata de um gato. Respondo que não sei, poderia ser uma gata, a vizinha de cima chama ele de gata. O psicanalista coloca o dedo em riste e diz “bom, isso Freud explica!”, desligo. Na segunda tentativa, escolhi uma mulher só um pouco mais velha do que eu. Falo do gato, dos filmes ruins e dou alguns detalhes da minha conta bancária e ela diz “vou te interromper por um instante, ok?! Só o nosso primeiro encontro é experimental… Você tem certeza que consegue bancar as outras sessões?”. Certeza eu tinha, mas a indagação cortou o clima. Talvez consultas online não fossem para mim. O problema persistia, mas eu começava a me convencer de que não poderia ser tão ruim. Suportaria ligar para a minha mãe dizendo que, às vezes, a toalha fica úmida e deixa um cheiro esquisito no corpo. Conseguiria olhar para minhas economias como um Karl Marx apaixonado pela vida: elas são para cerveja, livros, espetáculos, festas e bar; para pensar, amar, teorizar, cantar e sofrer. Saberia escrever sobre o vão da existência, só para concordar com Guimarães Rosa, “eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós”. Não sou supersticiosa, mas considero que o número três é envolto por um véu de sorte. Última tentativa, vou para a terceira consulta. Chego no parapeito da minha janela e como ainda é cedo, fico admirando as plantas da floreira: lavanda, manjerona, manjericão e capim-limão. Será que essas ervas também me encaram? Respiro fundo para dissipar a ideia. Quando olho um pouco para cima, lá está ele, vejo suas pupilas abauladas focadas em mim. O gato agora é meu analista, ele me ouve por meia hora antes de perguntar: “por que tens tanto medo?” Por mais meia hora fico calada, vai que a resposta não sai bem elaborada, melhor deixar para a próxima sessão.
Café da manhã

Edit página inicial portfólio textos projetos currículo página inicial portfólio textos projetos currículo Café da manhã Na infância, eu acordava com as luzes empesteando o quarto ou com os sons férreos que vinham da cozinha. Caminhava até a mesa e minha mãe estava lá, os olhos estacionados num ponto qualquer; as mãos inertes, segurando um pão, uma xícara de café. Não foram poucas as vezes em que perguntei o motivo dela ficar parecendo uma estátua, mas ela respondia que eram só os pensamentos. Como ela nunca os explicava, comecei a achar que eles eram coisas difíceis de dizer. Eu gostaria de descobrí-los, entender de onde eles vinham, quais palavras eles faziam brotar na mente e por que deixavam minha mãe daquele jeito, sem nem piscar. Minha ideia foi imitá-la. Eu escolhia um objeto de minha preferência e ficava concentrada nele. Uma das vezes selecionei a sanduicheira e, como se ela fosse a própria Medusa, esperava ser petrificada. Absorta pelo eletrodoméstico, eu enxergava suas qualidades físicas e funcionais: o corpo prateado, a luz verde, a trava abrindo e o queijo quente saindo. Isso era pensar? Não. Não poderia ser tão fácil. Depois de encarar tantos objetos, comecei a virar estátua sem perceber. Às vezes, eu ficava na sala, um livro aberto nas mãos, os olhos estáticos. Meu pai chegava para assistir jogos de futebol e eu não o via até sua voz chegar abafada, no fim de um eco, para quebrar o feitiço. Falava com ele ainda nebulosa, sentindo se desfazer sob a pele uma camada de rocha. Era imenso aquele sentimento de se dissolver no mundo, de deixar nascer e morrer pensamentos numa velocidade assombrosa. Aos poucos, fui entendendo suas formas e eles chegavam mais ou menos assim: dois mais dois igual a quatro, na minha casa moram quatro pessoas, quanta gente no mundo, já são oito bilhões? Estradas, rodas, bicicleta, pés descalços, praia, oceano, criaturas desconhecidas, vinte mil léguas submarinas, yellow submarine, eu nem ligo para os Beatles, o apanhador no campo de centeio… Bem que Montaigne dizia: “se não nos ocuparmos em certo assunto que os refreie e contenha, atiram-se desagregados, para cá e para lá, no vago campo das imaginações”. É só se deixar deslumbrar pelos pensamentos para conhecer sua confusão. Hoje mesmo, agi como uma lente desajustada: todo o foco, que estava em terminar o café, ir para o banho e começar a trabalhar, foi reorientado por causa de uma música desenterrada lá do fundo da minha mente. “Baba baby, baby baba, baba”. É, talvez pensar não seja tão difícil quanto eu achava e a minha mãe, naqueles dias, bem que poderia estar recordando alguma música grudenta de sua infância.
